21 de nov de 2011

O SONHO DE SEVERINO


Vou contar uma história
Se é verdade não sei
Já ouvi de outras pessoas
Muitas gargalhadas dei
Vou aqui narrar em versos
Por que quando ouvi gostei

O caso aqui ocorrido
Aconteceu em um lugar
Que não me foi relatado
Mais consigo imaginar
Se foi aqui no Nordeste
Eu prefiro acreditar

Lá pras banda da Bahia
Existia um fazendeiro
Rico com terras e gado
E também muito dinheiro
Tinha fama de bondoso
Amigo e hospitaleiro

Dava atenção para todos
Com respeito e alegria
Quando estava em conversa
Muitas vezes ele dizia
Não gosto de preguiçoso
Isso me dar alergia

Tinha mais de vinte cabras
Morando em sua fazenda
De capataz a gerente
Cuidando de sua renda
Desde casa de tijolo
A casa de taipa e tenda

Entre esses moradores
Morava o Severino
Um rapaz pálido e magrelo
Chegou ali pequenino
Ficou nas terras arranchado
Desde que era menino

Nem vivia trabalhando
Nem dedicava-se ao estudo
Vivia fazendo mandado
E acertava quase tudo
Era conhecido ali
Como Severino mudo

Porem era meio estranho
Nunca havia falado
Andava cabeça baixa
E sempre desconfiado
Mais ninguém dizia nada
Pois já tinha acostumado

Morava em uma das casas
Cedida pelo patrão
Não era lá grande coisa
Mas lhe dava proteção
Pois era parede de meia
Com a casa do patrão

Severino muito malandro
Sempre teve a intenção
De um dia passar a morar
Na casa do seu patrão
E até quem sabe um dia
Dormir lá no seu colchão

Porem nunca se atreveu
O seu segredo contar
Nem falou para o patrão
Pois vivia a planejar
Uma maneira de um dia
Seu plano realizar

Mesmo sem saber falar
Dizia no coração:
Eu um dia ainda durmo
Na casa do meu patrão
Nem que seja meia hora
Eu deito no seu colchão

Quero saber se ele é fofo
Se é de mola ou capim
Pois se gostar da dormida
Vou é comprar um pra mim
Pra dormir sempre no fofo
E nunca mais achar ruim

Besteira de Severino!
Pois devia ter pensado
Em ficar no seu cantinho
Pra não ser prejudicado
Pensou em traçar um plano
Pra o que havia pensado

Talvez se tivesse ido
E falado com o patrão
Contando que gostaria
De dormir no casarão
Tivesse realizado
O sonho daquele bestão

Mas nunca teve coragem
E não sabia falar
Fazia um "babudejado"
Quando ia perguntar
Quando alguém lhe perguntava
Começava a disfarçar

Existia um boato
Falado no barracão
Que ali naquela fazenda
Existia assombração
E onde ele se arranchava
Ela na casa do patrão

Até mesmo o coronel
Já havia comentado
Que ha dias vinha vendo
E estava desconfiado
Que o quarto daquela casa
Estava mal assombrado

Ninguém ousava ficar
Dentro da casa trancado
Pois fazia quase um mês
Estava mal assombrado
E o patrão tava ficando
Um pouco desanimado


No desejo de dormir
Na cama do seu patrão
Severino inventou
De fazer assombração
Porem ninguém desconfiava
Que era dele esta ação

Severino logo entrava
Assim que anoitecia
Na casa do seu patrão
E por ali se escondia
Esperava dar a hora
Pra fazer estripulia

Quando a luz do candeeiro
Se apagava na sala
Que tudo ficava escuro
Ele arrastava uma mala
Batia em toda panela
E babudejava* a fala

Por causa da escuridão
Ninguém mais se levantava
Com medo do "malassombro"
Todos na casa gritava
O mais corajoso ali
Com o lençol se enrolava

Assim por quase dois meses
Severino aprontava
Não desistia do sonho
Que há tanto tempo sonhava
De dormir na cama fofa
Que seu patrão se deitava

A maneira que encontrou
Foi assustando o patrão
Pensando que ele fugia
Com medo de assombração
Pra ver se um dia dormia
Naquele fofo colchão

Mais um dia o seu patrão
Resolveu criar coragem
E armar uma cilada
Para aquela fuleiragem
E fez que ia dormir
E se escondeu na garagem

Combinou com a mulher
Que na hora de dormir
Apagasse o candeeiro
Que hoje ele ia agir
Ou pegava o "malassombro"
Ou ia embora dali

Já havia desconfiado
Que o mudo era culpado
Do "malassombro" da casa
Já que havia se afastado
Das conversas do boteco
Nas noites de feriado

A tardinha ele esperou
E viu na hora marcada
Quando Severino entrou
Com a cara desconfiada
Se escondeu numa sala
Um pouco mais afastada

Bem na hora de dormir
Quando a luz se apagou
O patrão já enraivado
Pra agir se preparou
Em menos de dez minutos
A resenha começou

Terra jogada na sala
E moveis sendo empurrado
Um batuque diferente
Um "babulejo" danado
O patrão não tinha medo
Pois já sabia o culpado

Quando Severino veio
Todo "ancho" e entretido
O patrão deu-lhe um arrocho
Pegou nos seus "pissuido"
Deu-lhe um arrocho tão grande
Que ele deu um gemido

Pare ai cabra safado
Me diga você quem é
Continuou apertando
E cada vez com mais fé
Diga se é "malassombro"
Se é homem ou se é mulher

Agarrou com as duas mãos
Apertou de fazer dó
Quanto mais ele apertava
Botava força maior
E Severino gritava
"Bababá", "bebé", "bobó"

Diga seu nome infeliz
Pois eu preciso saber
Seu nome vou divulgar
Para todos conhecer
Que esse tipo de "malassombro"
Eu boto para correr

O mudo "babulejava"
Que se entendia pouquinho
Mais a dor foi aumentando
Ele ficando fraquinho
Não aguentou mais e disse:
É Severino o mudinho

Foi essa a primeira vez
Que vi um mudo falar
Saiu dali dando salto
Sem força pra se explicar
Teve fim o "malassombro"
Que vivia a assombrar

Severino foi embora
Pois não fez a coisa certa
Levou umas "tabicadas"
E recebeu um alerta
Foi embora reclamando
Andando de perna aberta

A lição ele aprendeu
Demora mais sempre vem
Se contentar com o que seu
Maior que essa não tem
Nunca mais quis se deitar
Em cama de seu ninguém.

José Amauri clemente – novembro 2011.

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