30 de abr de 2010

Um gigante pede socorro



No Estado das Minas Gerais nasce um gigante conhecido pelos índios como Opará, pelos íntimos como Velho Chico e pela maioria como Rio São Francisco. É mesmo um gigante, não só por está situado a quase 1.200 metros de altitude, nem apenas por passar pelos Estados da Bahia, fazer divisa com Pernambuco e separar os Estados de Sergipe e Alagoas, nem tão pouco por despejar suas águas no Oceano Atlântico.

Gigante não apenas pelo tamanho dos seus dois estirões navegais, um com cerca de 1.371 km de extensão e o outro com 208km, passando pelas cidades de Pirapora, Juazeiro, Petrolina e Piranhas.

Este Gigante foi visto pela primeira vez pelo navegador Américo Vespúcio, foi ele quem primeiro navegou em suas águas em 1.501. O nome foi dado em homenagem a São Francisco, já que foi descoberto no dia 4 de outubro do mesmo ano.

É gigante por conseguir resistir a ação do tempo. Suas margens foram exploradas, desmatadas, seus peixes estão quase extintos se comparado a época em que apenas os índios o conheciam.

Gigante por ser o principal curso d’gua de uma das doze bacias hidrográficas do Brasil, sua região abrange terras de 521 municípios dos Estados do Nordeste, e outras regiões. É-lhe juz o título de Nilo Brasileiro.

Projetos audaciosos como a transposição do Rio São Francisco, uma idéia absurda que teve origem ainda nos dias de D. Pedro, vem à tona nos dias atuais, com a falácia de ajudar o semi-árido nordestino. O gigante Velho Chico não está em condições de estender suas águas para outras regiões. Antes é preciso cuidar de sua saúde.

“Diversas ações de revitalização e recuperação do rio São Francisco estão em andamento ou em estudo através de parcerias com o Ministério da Integração Nacional. Entre elas, obras que implicam na regularização das águas e melhoria das condições fluviais do rio, bem como no aumento da oferta hídrica de melhor qualidade para usos múltiplos.

Um exemplo concreto são as ações de desassoreamento do trecho da travessia do São Francisco próximo à sua foz, na região de Neópolis/Penedo, ao custo de R$ 425 mil, e ainda as obras de conformação do leito do rio São Francisco no trecho navegável entre Pirapora e Juazeiro. Os estudos de viabilidade e usos múltiplos das bacias dos rios Urucuia, Velhas e Paracatu, Minas Gerais já produziram um vasto acervo de dados socioeconômicos, do meio físico e biótico daquelas bacias, estando também prevista a instalação e operação de redes hidrológicas de monitoramento. Os recursos investidos nessas ações totalizam cerca de R$ 8,8 milhões. Seus resultados parciais já podem ser aplicados em diversos outros propósitos.

(http://www.codevasf.gov.br/programas_acoes/revitalizacao-1/acoes-de-melhoria-das-condicoes-do-rio-sao-francisco)

Se não houver investimentos na restauração do Rio São Francisco, correremos o risco de nas próximas décadas nossos netos o conhecerem apenas como gigante seco. Antes de doar as águas do Velho Chico para outras regiões, precisamos tirar doador da UTI.

Saiba mais em

http://pt.wikipedia.org/wiki/Rio_S%C3%A3o_Francisco

29 de abr de 2010

UMA FORMA INTELIGENTE DE DAR UMA MÁ NOTICIA.




Pai, estou nos Estados Unidos há quatro anos, muitas coisas mudaram em minha vida, entre elas a forma de pensar, de agir e também alguns costumes.
Durante os dezoito anos vividos ao seu lado, você me ensinou a coisa certa, mas agora resolvi deixar tudo e seguir caminhos completamente diferentes. Estou escrevendo da prisão, por ter matado um adolescente simplesmente por ter me perguntado o endereço do cemitério, era minha intenção fazer-lhe o favor completo, por isso o mandei de uma vez pra lá. Fui condenado a trinta anos de prisão, já estou aqui a cinco e não tive coragem de te dizer isso. Adquiri AIDS em uma relação homossexual, estou sendo obrigado a pagar a pensão dos quatro filhos, fui traído pela quarta vez pela segunda esposa, estou com o nome no SPC, SERASA, recebo todos os dias noticias de que estou sendo acusado de sonegar impostos,
Devo mais de cinco mil reais aos fornecedores de drogas aqui do presídio, estou com 90% do pulmão comprometido, e tenho câncer de garganta como conseqüência do uso do fumo. Os médicos suspeitam que estou com cirrose, admito ser alcoólatra crônico. Não lembro, mas dizem que matei três companheiros de cela, fui jurado de morte pelo carcereiro pela quinta vez.
A estas alturas posso ver você sentado no sofá lendo esta carta e com lágrimas escorrendo pelo rosto. Fica tranqüilo pai, é tudo brincadeira, isso tudo é só pra te dizer que existem coisas piores do que ser reprovado no vestibular.

Autor: José Amauri Clemente
Direitos reservados - 2010

22 de abr de 2010

EIS O “P” DA QUESTÃO.


Autor: José Amauri Clemente

22/04/2010

Quando criança, muitas vezes ouvi meus avós falarem bem a respeito do caráter dos policiais. – São homens escolhidos para protegerem a população, Essa era a resposta dada pelos mais velhos quando alguém os interrogava. A frase “sentar praça” era a única usada para dizer que eles haviam sido aceitos na corporação. Era uma honra para os pais saber que um de seus filhos fora escolhido para defender a nação. Não se ouvia falar de policiais envolvidos em crimes, corrupção drogas ou qualquer outra coisa que manchasse no nome dos escolhidos para proteger o cidadão e manter a paz.

Mais amado e respeitado por todos eram os padres, Muitas vezes ouvi dos lábios de minha mãe:

- São homens representantes de Deus aqui na terra, eles quase não comem, são quase santos.

Quanta inocência! Tão dignos de confiança eram, que até pensar que eles sentiam atração por mulheres parecia um pecado imperdoável. Terrível seria a transgressão dos que ousassem prever que um dia esses “santos” seriam presos acusados de pedofilia e envolvimentos em crimes tão hediondos.

Embora mal visto pelos radicais fanáticos do grupo de oposição, os Pastores foram ganhando adeptos, a princípio a palavra Protestante parecia mais um palavrão, traidores que se rebelavam contra a santa amada igreja.

Com o passar dos anos foram sendo aceitos como servos de Deus, amado por muitos reverenciado por alguns.

Hoje sabe-se de pastores envolvidos em pedofilia, fraudes e escândalos. Mais um “P” que aos poucos perde a credibilidade.

Pai, o herói preferido de quase todas as crianças. É verdade que eram mais ignorantes e rudes que os de hoje, mas não se tinha noticias de pais que estupravam seus filhos, jogavam de pontes ou janelas de apartamento. Mais um “P” a ser questionado.

Políticos honestos? Bem, não podemos dizer – Puxa vida como eles eram honestos! Mas fala sério, não existia a “bagunça” que existe hoje. Esse “P” já está em crise há mais tempo.


20 de abr de 2010

LAMENTAÇÕES DE UM SOBREVIVENTE


Autor: José Amauri Clemente
Todos os direitos reservados

Por que fomos dar atenção àqueles homens de roupas diferentes que chegaram a nossa ilha com largo sorriso e fala estranha? Não entendíamos o que eles queriam quando estenderam a mão para o chefe da tribo. Nossas crianças correram para se esconder nas ocas e sobre as árvores, mas logo foram se aproximando ao verem os objetos sendo desencaixados e entregues às mulheres da aldeia.
Nunca tinham visto seus rostos a não ser no reflexo da água, aquele objeto que eles chamavam de espelho era a coisa mais surpreendente que já havíamos visto.
O passar do pente no cabelo das índias adolescentes as tornavam mais bonitas e atraentes, os brincos de metal postos em suas orelhas refletiam a luz do sol nos olhos dos índios que as olhavam. Que roupas bonitas! Os tecidos coloridos pareciam ter sido mandados pelos deuses para aliviar o frio do inverno causticante.
Nas aldeias vizinhas não se falava em outra coisa a não ser os presentes doados pelos homens de caras brancas e roupas estranhas. Como nossos indiozinhos ficavam felizes quando os brancos os deixavam subir nas caravelas para tomar banho saltando dentro d'agua.
Mesmo com receio, nosso cacique ficou encantado com a novidade trazida pelos novos “amigos”.
Há! Se os deuses tivessem nos falado aos ouvidos que aquelas pedras que enfeitavam os pescoços de nossas índias eram tão valiosas e no futuro iriam nos causar tantos problemas, se soubéssemos, não teríamos negociado nossos frutos, nossas sementes, nossas madeiras em troca de bugigangas que alegrou-nos apenas por alguns dias.
Maldita invenção da caravela, maldita invenção dos mapas, malditas promessas, malditas indústrias que invadiram nossas terras, malditas demarcações que hoje nos atormentam, Maldito capitalismo que nos escraviza. Maldito 22 de abril de 1500! Se tu não tivesses existido minha tribo não estaria extinta.


20 de abril de 2010

19 DE ABRIL. SEM MUITO O QUE COMEMORAR.


Em alguns lugares do Brasil, pessoas se reúnem para comemorar, ou pelo menos lembrar que o dia 19 de abril é o dia do índio. Mas será que têm eles o que festejar?

Por volta do ano 1500 quando os europeus “invadiram” as terras indígenas, haviam por aqui aproximadamente cinco milhões de habitantes (e ainda dizem que o Brasil foi descoberto), eram divididos em tribos de acordo com a raiz lingüística a qual pertenciam: Tupis-guaranis, Macro-jé ou tapuias, Aruaques e Caraibas, Espalhados pelas regiões do Litoral, Planalto Central e Amazônia (e ainda dizem que os portugueses colonizaram esta terra), Falavam mais de 170 línguas e eram cerca de 200 etnias.

Os indígenas que habitavam na época do “descobrimento” viviam da caça, da pesca e da agricultura de milho, amendoim, feijão, abóbora, bata-doce e principalmente mandioca outras lavouras.(E ainda dizem que os Europeus trouxeram novidades na agricultura)

As tribos indígenas possuíam uma relação baseada em regras sociais, políticas e religiosas. O contato entre as tribos acontecia em momentos de guerras, casamentos, cerimônias de enterro e também no momento de estabelecer alianças contra um inimigo comum. (Bem diferente das tribos de Brasília).

Mais de quinhentos anos depois, restam apenas algumas tribos exploradas pelo capitalismo, obrigadas a sobreviverem sob as mãos dos endinheirados que tentam enganá-los com assentamentos e distribuição de terra que sempre pertenceram aos índios. O dia 19 de abril tem mais o que lamentar do que comemorar. Tomaram, saquearam, eliminaram seus costumes, forçaram os índios a dependerem do capitalismo mal dirigido e deram-lhe um dia apenas para lembrar que foram donos desta ilha chamada Brasil.

18 de abr de 2010

COLHEMOS O QUE PLANTAMOS



Enquanto meu irmão se contentava em gastar o pouco tempo que nosso pai nos dava de folga e o dinheiro minguado que ganhava fazendo favores ao patrão, eu metia a cara nos livros que conseguia emprestado com a professora. Sonhava com uma vida diferente da que estava acostumado a ver.
As garotas diziam que eu era “mulherzinha” por não aceitar seus convites para tomar *guaravina com **bolacha de dieta no barracão da usina. Meu irmão adorava essa idéia, sempre voltava contando vantagens, embora depois tivesse que lamentar por pagar a conta sozinho.
Eu só dava descanso aos meus olhos todas as noites, quando o pouco gás que minha mãe reservava no candeeiro acabava.
- Assim que acabar o querosene, vê se vai dormir, não quero você amanhã com os olhos inchados de tanto ler este negocio ai.
A noite parecia ter menos de trinta minutos, muitas vezes pensei que meu pai havia acordado o galo antes de nos recomendar as tarefas diárias.
Incentivo? Só mesmo de minha mãe. Nos finais de semana eu preferia ficar em casa tentando responder aqueles problemas matemáticos que a professora passava para a lição de casa.
Como conseqüência das saídas de meu irmão para tudo quanto era festa e por se achar o garanhão da região, teve que se mudar para outra usina a fim de conseguir dinheiro para sustentar seus quatro filhos, sem contar com os xingamentos das mães que todos os dias o ameaçavam de procurar a policia se ele não lhe pagasse as pensões.
Foi uma festa maravilhosa quando concluí o primeiro grau, todos estavam felizes, pensei até em usar no discurso algumas palavras novas que havia aprendido no dicionário, mas depois desisti, ninguém ia me entender mesmo.
Na manhã do dia em que completei 18 anos de idade, o sol parecia muito mais bonito, duas semanas depois parti para São Paulo. Não deu pra ver se meu pai estava chorando, ele inventou que ia colher espigas de milho justamente meia hora antes de minha saída. Minha mãe me abraçou com um dos braços, enquanto segurava o quinto neto de dois anos com o outro.
Os prédios de São Paulo me fizeram esquecer por alguns instantes as lágrimas de minha mãe, não sei quantas vezes chorei sozinho escondido no banheiro imundo da oficina em que trabalhei por sete anos. Centenas de vezes tive que sair as pressas apenas para fingir um banho, a fim de tirar a graxa das unhas e pendurar o macacão. Na maioria das vezes tinha duas escolhas: Comer ou perder as duas primeiras aulas.
Hoje, olhando o passado, deitado em minha varanda, observando minha mãe com quase noventa anos de idade, assistindo sua novela predileta, sem ter mais com que se preocupar, me pergunto: Porque meu irmão se contentou apenas em administrar minha fazenda? Por que sorriu quando admiti uma de suas filhas como secretária em meu consultório?
É... Cada um colhe o que planta.

2 de abr de 2010

A PIOR COISA.


AMAR SEM SER AMADO

A coisa pior do mundo
É amar sem ser amado
Viver sempre desprezado
Por sentir amor profundo
Andar como moribundo
Por amar quem não nos ama
Ver-se sozinho na cama
É que o desgosto vai fundo

Ver quem tanto a gente ama
Nos braços de outro alguém
Chora quem nem lágrimas têm
Não importa a sua fama
Seja cavalheiro ou dama
Dá a vida ao desengano
Joga fora todo plano
Chora e infeliz reclama

Anda sem ter direção
Não sabe pra onde vai
Desanima o coração
Nada no mundo lhe atrai
Quando se levanta cai
Espera que tudo acabe
Antes de tudo desabe
nada que bom dele sai

Seja de noite ou de dia
As noites parecem anos
Tudo lhe dar agonia
Fogem-lhe todos os planos
Vem-lhe logo desenganos
Pensa em se matar por ela
Quem me dera fosse aquela
Que não me causasse danos

Deita-se não vem o sono
Levanta-se logo cai
Entrega-se ao abandono
Pensa que vai, mas não vai
Pensando que entra sai
Eita vida desgraçada
Dorme até pelas calçadas
“Essa vida Não me atrai”

Antes que isso aconteça
Melhor mesmo é evitar
Amar quem nunca lhe esqueça
Una-se sem maltratar
Riqueza paz nunca dar
Isto está comprovado
Ame quem ta do seu lado
Antes dele lhe deixar


José Amauri Clemente
AGOSTO 2004.