19 de nov de 2014

ROSA MARIA




Mulher bela como a lua
Quando do nascente vem
Que beleza igual a tua
Na natureza não tem
Meu sonho, sonho de sempre
Era poder te abraçar
Mas por ter pouco dinheiro
A filha do fazendeiro
Eu nunca pude beijar

Que poderia um vaqueiro
Empregado, capataz
Homem pobre sem dinheiro
Só com sonhos e nada mais
Que sonhava em ter nos braços
Pra esquecer seus fracassos
E viver com alegria
Olhando o corpo perfeito
Com as curvas sem defeito
Corpo de Rosa Maria

Corpo este que jamais
Eu vou poder abraçar
Por ser um pobre rapaz
Apenas posso sonhar
Com a mulher que amei
Com paciência esperei
Tão perto de mim estava
E ao mesmo tempo distante
Pois não quis ser confiante
Nos sonhos que eu sonhava

Em meus sonhos foste minha
Na saudade muito mais
Nos sonhos teu corpo eu tinha
Mas de verdade jamais
Nas histórias que eu criava
Que só para mim contava
Eu era o príncipe encantado
Tinha você de verdade
Longe da realidade
De um pobre apaixonado

Outro por que tem dinheiro
Teu corpo vai abraçar
Não sei se esse fazendeiro
Vai pra sempre te amar
Mesmo pobre como eu
Meu olhar não esqueceu
Teu corpo tomando banho
Teu dinheiro e minha saudade
Juntos não chegam a metade
De um amor de tal tamanho.

7 de out de 2014

O CANTOR DO MEU QUARTO

AUTOR: José Amauri Clemente

Não gosto de violência
Essa coisa me atrasa
Vivo em paz com a família
Sou chefe de minha casa
Mas tem coisa que acontece
Que mesmo o fraco enfurece
E o gelo vira brasa

De uns dias para cá
Começou aparecer
Um cantor em minha casa
Que veio pra me aborrecer
Cantou tanto todo dia
Que tirou minha alegria
Pensei até em morrer

Ele chegou sorrateiro
Não sei nem como ele entrou
Chegou sem bater na porta
Nem se quer pra mim olhou
Entrou sem cumprimentar
Meteu a boca a cantar
E nem comigo falou

Eu fiquei desconfiado
A mulher “tava” gostando
Pois toda vez que eu falava
Dizia: Tá conversando!?
Deixa o bichinho cantar
Ele quer nos agradar
Escute o “bichim” cantando

Toda noite o miserável
Aparecia por lá
Aquilo me incomodava
E pra não dar bafafá
E pra não pegar má fama
Saia da minha cama
Ia dormir no sofá

E o pior é que ao sair
Deixava o quarto fechado
O cantor ficava lá
Com minha mulher trancado
Eu saia caladinho
E escutava bem baixinho
O cantar do desgraçado

Cantava a noite todinha
Pra minha mulher dormir
Eu pra não dar confusão
Nem pretendia assistir
E quando dele eu falava
A mulher desconversava
E começava a sorrir

Eu como sou paciente
Mas também tenho limite
Disse assim para a mulher
Eu vou lhe dar um palpite
Mande esse cantor parar
Se não eu vou acabar
Morrendo de um “estriquilique”

A minha mulher dizia
Pra que tanta ladainha?
Pois com o cantado dele
Eu durmo a noite todinha
Tu pára de reclamar
Se não quiser no deitar
Vá dormir lá cozinha

Ou então durma na cama
Tem lugar para nós três
Afinal não foi só hoje
Não já dormiu outra vez?
Com o tempo tu acha bom
Se enrole no edredom
Nós temos que ser Cortez

Seu cantar não me incomoda
Me faz até relaxar
É uma música suave
Chego até acompanhar
E logo pego no sono
E você no abandono
Só sabendo reclamar

Se tiver aperreado
Seja homem, mostre agora
Pegue o cantor que perturba
Der uma pisa e mande embora
Porem pra mim tanto faz
Eu quero viver em paz
Chega de tanta caipora!

Eu a mais de uma semana
Que no sono não pegava
Por causa do miserável
Que no meu quarto cantava
Mas nesse dia eu pensei
E o cantor esperei
Pra ver se tudo acabava


Nove horas mais ou menos
O miserável chegou
Com aquela gritaria
Abriu a boca e cantou
Ai eu perdi a calma
Sem valorizar a alma
Parti pra mostrar quem sou

Abri a porta do quarto
Com uma violência danada
Procurei vi logo ele
Com a boca escancarada
Aquilo no meu ouvido
Um barulho um estupido
Parecia palhaçada

Peguei a arma que tinha
E botei com mais de mil
Ele de mim se livrou
Mas no lençol se cobriu
Foi pra debaixo da cama
E para fugir do drama
Da minha vista sumiu

Com medo ficou calado
Eu dizia: venha cá!
Dessa vez tu não escapa
Agora eu vou te matar
Hoje eu durmo em minha cama
Vou mostrar que tenho fama
Venha pra nós conversar

A mulher de lá gritava
Tenha calma! Tá demais!
Não machuque muito ele
Paciência meu rapaz
Ouça o que vou dizer
Cuidado pra não bater
E estraga-lo demais

Foi aí que acertei
Com minha arma na mão
Quebrei a costela dele
Que perfurou o pulmão
O fato saiu pra fora
Eu disse lascou-se agora
Acabou-se a confusão

Peguei ele joguei fora
Cansado já deu a trégua
Sacudi no meio da rua
E no mal passei a régua
E gritei que o pulmão encheu:
Aqui quem manda sou eu
Seu grilo “fi” de uma égua!


30 de set de 2014

O MACACO REVOLTADO



Um passarinho me contou
Ao visitar as cidades
Quando ele de lá voltou
Me trazendo as novidades
Que os humanos tão brigando
Um ao outro processando
Isso é fato registrado
Quando um ao outro xinga
Quando fazendo mandinga
São comigo comparado

Eu sou macaco da selva
Nascido em meio a floresta
Correndo no meio da relva
A gente não se detesta
Não existe distinção
Vivemos como irmão
Comendo no mesmo caco
E vocês ainda reclamam
Quando eles zangados chamam
Um humano de macaco?

Se tem alguém que devia
Ficar triste e envergonhado
Sou eu, quando for um dia
Com humano comparado
Pois aqui na minha aldeia
Só existe cara feia
Por que fomos feito assim
E vocês que são bonitos
Vive se tratando aos gritos
Acham que tá bom assim?

No lugar aonde eu moro
Não existem eleições
Sou chefe mas não exploro
Nem massacro outras nações
A terra não tem um dono
Nem deixamos no abandono
Nossos filhos quando nascem
Vocês que dizem humanos
Devem repensar seus planos
Quando a outros comparassem

 Quando foi que você viu
Um macaco abandonar
Um filhotinho que pariu
Dentro do lixo jogar?
Ou por causa de dinheiro
Fazer plano o dia inteiro
Por não ter amor ao seu
E mata-lo com vacina
Deixando uma triste sina
Pra alguém que nem nasceu

Nenhum macaco daqui
Da selva que Deus criou
Saiu para destruir
Aquilo que Deus plantou
Não somos nós que acabamos
Nem tão pouco sufocamos
O planeta com fumaça
Nunca vi nem um macaco
Que abandonou um mais fraco
Pra deixa-lo na desgraça

Aqui não existe SUS
Nem tem plano de saúde
Fomos feito por Jesus
Tomamos banho de açude
E se não fosse os humanos
A agente vivia cem anos
Mas por causa dos venenos
A gente morre mais cedo
Vocês vem nos fazer medo
Matando o grande e  pequeno

Eu não tenho conhecimento
Que um macaco algum dia
Viveu sem ter sentimento
Das maldades que fazia
Nem que matou por ciúme
Levando grande volume
De dinheiro as escondida
Nem que com ódio atraiçoou
Com uma arma roubou
Depois que tirou a vida

Não conheço do meu povo
Nenhum com conhecimento
Desde o mais velho ao mais novo
Que fez um mal julgamento
Que apenas por dinheiro
Traiu o seu companheiro
Pra poder levar vantagem
E vocês acham ruim
Quando comparado a mim?
Pra mim isso é desvantagem!

Aqui a gente se ama
Mesmo agindo por instinto
Seja no seco ou na lama
Falo a verdade e não minto
A gente faz cafuné
Eu amo a minha
Ela me ama também
Vocês é que são os fracos
Eu não troco dois macacos
Por tudo que vocês têm

Se vocês acham ruim
Quando comigo comparado
Está tudo bem assim
Vocês não estão errado
Se for por causa da cor
Da cara ou do fedor
Que a gente sempre tem
Eu estou ainda no ganho
Se você não tomar banho
Fica fedendo também.

Pra gente ter felicidade
Não precisou inventar
Um padrão de falsidade
Para outros enganar
Nem viver tudo fraudando
Um ao outro se matando
E fazendo o desumano
Só pra matar o mais fraco
Pergunte se algum macaco
Quer se tornar ser humano

Vou finalizar dizendo
Preste atenção no que digo
Querem ficar se roendo
Vá em frente meu amigo
Agora vou te falar
Antes de se magoar
Vou te dizer sem engano
Pra viver nesta espelunca
Eu é que não quero nunca
Me tornar um ser humano.




24 de jul de 2014

O BICHO TELEVISÃO


AUTOR: JOSÉ AMAURI CLEMENTE

Obs. Os erros de português foram propositais, para retratar a linguagem nordestina caipira.

Seu dotô eu num sô cronta
Essa tá sabedoria
Porem afiná de conta
Tem ela grade valia
Pois ela tem facilitado
E tem dado resultado
Nas coisa que era difici
Mas eu acho seu dotô
Que essa coisa meu sinhô
Tem algum tá feitici

Vô contar a minha historia
Pare aí pra me escutá
Tá tudo aqui na memoria
Eu não vô me demorá
Por favor pare um pouquinho
Me oiça só um tiquinho
Pra ver que eu tenho razão
Pois as coisa pioraro
Depois que o povo inventaro
A tá de televisão

No recanto nordestino
Lá na pequena cidade
Vivi lá desde menino
E tinha felicidade
Pouco se ouvia falar
Dos causo que havia lá
Nas cidades bem maior
Vivia na natureza
Tendo alí toda certeza
Que o lugar era o melhor

Até que num belo dia
Chegou a televisão
Nos encheu de alegria
E muita satisfação
Butaro uma na praça
E foi aquela arruaça
Na hora de inaugurar
Todos nós queria ver
A danada da TV
Que acabou de chegar

E entre os muitos intrito
Que a danada mostrava
Tinha uns jorná bunito
Umas coisa que passava
E quando agente assistia
Dava aquela alegria
De aprender algo novo
E eu prestava atenção
E num intendia não
Como que mostrava o povo

Eu ali me preguntava
Sozinho sem ninguém saber
Como é que funcionava
A danada da tv?
Como era que cabia
Tanta gente todo dia
Dento daquela caxote
Sem contar com os animais
Que ia pra frente e pra traz
Gritando e dando pinote

Até que alguém me falou
Quando um dia preguntado
Que o que ali se mostrou
Vinha lá do outro lado
Mandado por uma antena
Longe inté de fazê pena
E mandado por uns fio
Quando ele me contô
Eu confesso seu dotô
Chegou me dá arrepio

Pois parecia um feitiço
Quando ligava a danada
Se deixava os compromisso
E saia em disparada
Home mulé e minino
Do maior ao piquinino
Sentava e parava tudo
Com os oio arregalado
Todo mundo alí sentado
Tudo caladinho e mudo

Mulé queimava feijão
Somente pra ver novela
Seu dotô, eu num sei não
Que doença triste era aquela
Pois bastava o som tocar
Para o povo se espaiá
Deixar a roça e saír
Levando tamburete e banco
Por dentro dos sucavanco
Somente pra assistir
  
Parava e ficava oiando
Os movimento na tela
Aquelas image passando
Com umas mulé branquela
E os filme de tiroteio
Que ninguém achava feio
Quando o artista aparecia
Dando tiro murro pernada
E o povo nas gargalhava
Oiando aquilo aplaudia

As garotinha donzela
Toda vez que assistia
As infeliz das novela
Parece que endoidicia
Saia querendo imitar
O que via os pessoá
Fazer na televisão
E os rapaz só contava
O que antes se passava
Em umas tá de sessão

Só se via os minino
Brincando de tiroteio
No só quente tino a tino
Aquilo eu achava feio
Pois antes sempre à tardinha
Ia a turma todinha
Tomar banho no riachão
Agora ninguém quer ir
Por que querem assistir
A tá de televisão

E hoje em dia seu dotô
Aquele encontro dagente
Com o tempo se acabou
Ficou tudo deferente
Hoje não se junta mais
Nem ver moça nem rapaz
Pra brincar de tô no poço
A tarde num tem mais não
As cantiga do sertão
Nem que faça muito esforço

Trouxe um monte de mazela
A tá de televisão
Foi mardita hora aquela
Que teve inauguração
Pois foi desde aquele dia
Que acabou-se a alegria
Das histora e das leitura
Que a gente se sentava
E toda tarde cantava
Com alegria e ternura

A tá de televisão
Retirou toda vontade
Daquelas reunião
Que se tinha com amizade
Pra contar nossa historia
E mostrar nossas vitória
Do campo e pega de gado
Hoje de nós tudo dista
Trocaro pelos artista
Os  televisionado

Num se espante meu patrão
Nem pense que tô errado
A mardita televisão
Fez tudo ficá trocado
Hoje eu vejo na famia
Cada um pra suas tria
Num tem tempo pra conversa
A novela tira tudo
Estão junto mais tão mundo
Doidisse da gota é essa!

Vou percurá seu dotô
Um lugar que faça bem
Com gente que dê valô
Ao que de bom inda tem
Quero morar num lugar
Onde possa conversar
Pra dar e ter emoção
Eu quero ser morador
De um lugar que não chegou
O monstro, televisão.