25 de jul de 2016

MEU PAI NÃO TINHA RAZÃO


Nordestino é cabra macho!
Assim papai me dizia
Ele nunca passa em baixo
Seja de noite ou de dia
Não foge de uma baderna
O cacho que tem nas pernas
Valentia é compromisso
Se ver uma briga boa
Não foge nem fica atoa
Enfrenta e mostra serviço

Meu pai dizia: olhe bem
O home tem que sê forte
Não ter medo de ninguém
Mermo que seja pra morte
Não abre nem pra o cão
De tapa mata leão
E mama em onça pintada
Correr não ficou pra homem
Quando encontra  lobisomem
Mata ele de mãozada

Esse monte de bobagem
Que papai tanto falava
Ia me dando coragem
De vez em quando eu brigava
Quando pegava um mais fraco
Dava-lhe um cata cavaco
E botava pra correr
Que nos canto que eu chegava
Quem fosse fraco arredava
No queria nem me ver

Meu pai dizia: Vavá
Todo gordo é ruim de briga
Nascero para apanhar
Pois gordo só tem barriga
Aquele monte de banha
Quando briga nunca ganha
Nem no tapa nem no murro
Pois até pra aprender
Nem sabe se defender
Eita desgraçados burro

Eu de besta acreditei
No que papai me dizia
Por muito tempo esperei
Por mais esta estripulia
E foi num jogo de bola
Que eu marquei na cartola
E olhei pra um gordinho
E disse vai ser agora
Vô da nele de espora
Como faço com o burrinho

Eu era um branco taludo
Quase um metro só de perna
Ele um baixinho troncudo
Eu pensei: Vai ter baderna
Hoje eu vô mostrar quem manda
Vou entrar nele de banda
Se a bola vier pra mim
E vô dá-lhe uma rasteira
Jogar ele na poeira
Que ele vai comer capim

Só bastou mesmo eu pensar
Tocaram a bola pra mim
O gordinho veio me marcar
Aí eu pensei assim:
Eu vô dá-lhe um imprensão
Empurrei com as duas mãos
Que a costela estremeceu
Ele botou corpo duro
Foi como bater no muro
Quem caiu pra trás foi eu.

Me levantei azoado
Vendo o céu de toda cor
Com o zoio esbrugaiado
Sentindo no corpo a dor
Aí o juiz deu farta
Puxou do boço uma carta
Vermelha que nem pimenta
Eu já quase desmaiando
E o povo de lá gritando
Tem sangue no pau da venta

Então eu pra me vingar
E pra não ficar pra traz
Parti para me vingar
Há! foi pior meu rapaz
Quando a mão eu estendi
Na munheca a dor senti
Ele o braço segurou
Ele deu-me uma gravata
Pode crer quase me mata
Até hoje eu sinto a dor

Só via o povo gritar
Bem baixinho quase sumindo
Vai vavá, vai vavá!
Outros de longe sorrindo
E o folego se acabando
Eu de dor já me cagando
Mais não podia gritar
Há gordinho forte peste
Hoje eu não passei no teste
Dessa vez vou me lascar

Ô força descomunal!
Papai tava era mentindo
Eu ali passando mal
O fôlego quase sumindo
O jogo logo parou
Foi quando um de lá gritou
Bota força valentão
O juiz pra me salvar
Pediu pra ele me soltar
Ele me jogou no chão

Eu deitado na poeira
Com a cara toda melada
O povo aquela zoeira
Uma gritaria danada
Passei quase meia hora
Para ter uma melhora
E saber ande é que eu tava
Foi uma pisa infeliz
E se não fosse o juiz
Daquela eu não escapava

Depois do caso passado
Quase uma hora depois
Eu ainda estropiado
De um tava vendo dois
Foi aí que percebi
Que o cara que agredi
Não era um gordinho não
Eu estava era enganado
Já era um home formado
Era um infeliz de um anão

Até que me chegue a morte
Não sei nem quero saber
Se gordinho é fraco ou forte
Com isso deu pra aprender
Talvez papai “teja” certo
Mesmo assim não passo perto
Pra evitar confusão
Mas pra ver eu me mijar
Basta só alguém gritar:
Vavá, lá vem o anão!

Todos os direitos reservados.



1 de abr de 2015

JÁ NÃO SEI O QUE É PIOR

AUTOR: JOSÉ AMAURI CLEMENTE

Lembro o ontem como se fosse agora
Desejando que o ontem hoje voltasse
Como sempre a mim tu maltratasse
A saudade maltrata o peito agora
Lembro triste os momentos de outrora
Que eram poucos momentos de alegria
Pois em mim desse um banho de água fria
Minha vida jogasse no recanto
Quem eu tanto amei chorando tanto
Hoje passa por mim sem dá bom dia

A distância de ti me deixou perto
Do stress e da beira da loucura
Seu amor para a mim seria a cura
Desse sol que me queima no deserto
Meu viver dessa forma é incerto
Não consigo viver nessa agonia
Sonho a noite que vou te ter um dia
Mesmo que essa dor cale o meu canto
Quem eu tanto amei chorando tanto
Hoje passa por mim sem dá bom dia

O sorriso que brota do teu rosto
Faz chorar quem por ti perdeu o sono
Vivo tão infeliz no abandono
Quem me ver nota logo meu desgosto
Teu olhar nos meus olhos sempre exposto
Não consigo esquecer se quer um dia
Já não sei se é pior agonia
De viver ao teu lado ou no meu pranto
Quem eu tanto amei chorando tanto
Hoje passa por mim sem dá bom dia

Se viver ao teu lado causa pena
Viver longe de ti traz desgraça
Já tentei fazer tudo mais não passa
O teu corpo me segue em cada sena
A lembrança dos beijos me envenena
Mesmo assim era tudo que eu queria
Em pensar de nunca te ter um dia
Nem a morte me causa tanto espanto
Quem eu tanto amei chorando tanto
Hoje passa por mim sem dá bom dia


Se chorando eu sorria ao teu lado
Hoje choro por não ter mais sorriso
Hoje sei foi maior o prejuízo
Do que tudo que sofri no passado
Quem me dera tivesse conformado
Com os tristes momentos de alegria
Quem me dera poder voltar um dia
Mesmo em choro abraçar teu corpo santo
Quem eu tanto amei chorando tanto
Hoje passa por mim sem dá bom dia

TODOS OS DIREITOS RESERVADOS











28 de jan de 2015

SEPARAÇÃO DE BENS



JOSÉ AMAURI CLEMENTE

Seu dotor eu num sei ler
Por isso vou lhe falar
É pra o senhor escrever
O que vou lhe relatar
Escreva aí no papé
Prumode a minha mulé
Não me dar um prejuízo
Que a gente vai separar
Pra ela num me enganar
E eu ter que sair liso

Em trinta anos de casado
Trabaei de fazer medo
Dormindo tarde e cansado
Isso nunca foi segredo
E depois dos fio criado
Eu vivo aqui revortado
Com a minha companheira
Que hoje quer me deixar
Pensando que vou lhe dar
A minha furtuna  inteira

Anote aí seu dotô
Que eu vou começar dizer
Hoje tenho seis tamburete
Duas vassoura de sambê
Com os cabo bem alinhado
Um sapato invernizado
Por que o outro se rasgô
Um cinturão amarelado
Feito de cordão trançado
De um punho que se quebrou

Uma rede ainda boa
Com um buraquinho rasgado
Aguenta duas pessoas
Se não for muito pesado
Um pote ainda meio d’àgua
Um radim pra minhas mágua
Eu esquecer escutando
Só farta mesmo consertá
Mode o danado tocá
Quando eu tiver trabaiando

Não esqueça de anotar
O meu copo transparente
Que serve pra eu tomar
Os meus gole de aguardente
Meus três tijolo batido
Que tá no quarto escondido
Pra fazer o meu fogão
Se eu não tivesse guardado
Ela já tinha levado
Ô mulé sem coração!

A minha cama só farta
Dez vara pra terminar
A esteira tá bem arta
Cumade vai terminar
O candeeiro tá furado
Mas tá cum sabão tampado
Só vaza quando tá cheio
Isso pra mim não é drama
Por que ele só derrama
Se tiver pra lá de meio

A cachorra tá doente
Só pariu dez cachorrinho
Não esqueça do meu pente
Que só tem oito dentinho
Mas serve pra pintiar
Quando eu vou viajar
Um dia a cada dez mês
A camisa sem botão
A bermuda e o calção
Que paguei de doze vez

Um cabo de cavador
Que ganhei do marcinero
Um pé de ventilador
Um coro vei de pandeiro
O cabo de uma viola
Um vidro de botar cola
Que me serve de caneco
Catoze espiga de mio
E um pedaço de fio
Que é a tramela de um buteco

Minha escova dessa vez
Nem precisa anotar
De dente eu só tenho três
Pra que desgraça escovar
Todo dia era uma briga
Por que aquela bixiga
Queria escovar primeiro
Como os meus dente era mais
Ela tinha seu rapaz
Que fica pru derradeiro

A peneira e o balaio
O quengo de tirar sopa
Aquela parte do gaio
Que a gente pendura ropa
Pode botar anotado
O meu caçoar rasgado
Onde os gato tão deitado
Pensa que pertence a ela?
É a cama da cadela
Não pode ser retirado

Eu só vou deixar pra ela
Pra no dizer que sou rim
Um filhote da cadela
E um abano novim
Meu fecho de lenha verde
E pra não morrer de sede
Vou abrir mão da quartinha
Só tá com gogó quebrado
Mais se bota com cuidado
Sustenta a água todinha

E por isso seu dotô
Eu vou dá castigo a ela
Vou retirar todo amor
Que dei aquela cadela
Ela vai ter que escolher
Se vai comigo viver
Quero ouvir isso primeiro
Quero saber meu amigo
Se ela vai viver comigo
Ou com o fio do fazendeiro.


JOSÉ AMAURI CLEMENTE
JANEIRO 2015

19 de nov de 2014

ROSA MARIA




Mulher bela como a lua
Quando do nascente vem
Que beleza igual a tua
Na natureza não tem
Meu sonho, sonho de sempre
Era poder te abraçar
Mas por ter pouco dinheiro
A filha do fazendeiro
Eu nunca pude beijar

Que poderia um vaqueiro
Empregado, capataz
Homem pobre sem dinheiro
Só com sonhos e nada mais
Que sonhava em ter nos braços
Pra esquecer seus fracassos
E viver com alegria
Olhando o corpo perfeito
Com as curvas sem defeito
Corpo de Rosa Maria

Corpo este que jamais
Eu vou poder abraçar
Por ser um pobre rapaz
Apenas posso sonhar
Com a mulher que amei
Com paciência esperei
Tão perto de mim estava
E ao mesmo tempo distante
Pois não quis ser confiante
Nos sonhos que eu sonhava

Em meus sonhos foste minha
Na saudade muito mais
Nos sonhos teu corpo eu tinha
Mas de verdade jamais
Nas histórias que eu criava
Que só para mim contava
Eu era o príncipe encantado
Tinha você de verdade
Longe da realidade
De um pobre apaixonado

Outro por que tem dinheiro
Teu corpo vai abraçar
Não sei se esse fazendeiro
Vai pra sempre te amar
Mesmo pobre como eu
Meu olhar não esqueceu
Teu corpo tomando banho
Teu dinheiro e minha saudade
Juntos não chegam a metade
De um amor de tal tamanho.