15 de ago de 2013

VERDADEIRAS HEROÍNAS


ÁUDIO


   
   
   


AUTOR: JOSÉ AMAURI CLEMENTE
Nestes versos que escrevo
Quero homenagear
As mulheres de outrora
O por que vou explicar
Elas eram heroínas
Sofrendo desde meninas
Sem xingar nem reclamar

Vou explicar o porquê
Digo o motivo sem medo
Todos os mais velhos sabem
Isso nunca foi segredo
Era uma vida sofrida
Que pra dar conta da lida
“Dorme tarde e acorda cedo”

Na época da minha mãe
Não tinha fogão a gás
Nem ferro, nem micro-ondas
Conforto que satisfaz
Era tudo feito à mão
Na força da produção
Nem tudo corria em paz

Tinha que cuidar de ovelha
De porco galinha e pato
De catorze ou quinze filhos
E de um marido chato
Que só falava gritando
Dando chute e reclamando
Se ficasse sujo um prato

Água encanada não tinha
Lenha tinha que buscar
Fazer o fogo assoprando
Milho tinha que ralar
Para fazer o cuscuz
No escuro e sem ter luz
Elétrica pra clarear

Se quisesse lavar roupa
Tinha que levar pra o rio
Com dois menino enganchado
Nu mesmo no tempo frio
Pois a roupa que vestia
Levava dentro da bacia
Pra enxugar no estio

Três e meia da manhã
Já tinha que estar de pé
Fosse inverno ou verão
Tinha que fazer café
Pra o marido ir pra roça
Falando de cara grossa
Deixa de dengo “muié”

Todo ano tinha um filho
Nascido no mesmo mês
Muitas vezes amamentava
Três ou quatro de uma vez
Botando um em cada peito
Não sei como dava um jeito
E amamentava três

Não havia geladeira
Nem liquidificador
Dormia em cama de vara
Sem ter um ventilador
Um lençol cobria seis
Um travesseiro pra três
Não reclamava da dor

Trazia feixe de lenha
Antes do galo cantar
Enchia todos os potes
Antes do sol despertar
Pescava peixe no rio
Dizendo esse é pro meus “fio”
Poder se alimentar

Quando o marido queria
Namorar não perguntava
Se ela estava com vontade
Simplesmente lhe ordenava
Vá pro quarto me esperar
Enquanto eu vou tapear
Pedro, julho e Marinalva

Além de cuidar dos filhos
Tinha ainda os animais
Uns quatro ou cinco cachorros
Gatos tinham muito mais
Que pariam de uma vez
Em cada ninhada seis
E ninguém ouvia os “ais”

Faltava televisão
Rádio nem viam falar
Quando havia diversão
Era um forró pra dançar
Marido criava asa
Deixava a mulher em casa
Ia pra festa “farrar”

Quando ele voltava bêbado
Não era pra reclamar
Tinha que lavar a roupa
Caladinha sem xingar
Se não levava na cara
Ou apanhava de vara
Sem ninguém pra lhe apoiar

O marido perguntava:
Cadê o café pra mim?
Já foi mudar as ovelhas?
Já foi tirar o capim?
Pra dar “prás” cabras de leite
Vá antes que eu lhe ajeite
Não gosto de gente assim

Troque a roupa do Joãozinho
Faça o gogó de mané
Cate os "piôios" de "xica"
Corte as unhas de José
Vá depressa sem besteira
"Butar" banha nas coceira
Que "nascero" em "Manué"

Tem o mais novo mijado
Se arrastando pelo chão
Que peste tu tá fazendo?
Que não cozinhou feijão
Passasse o dia brincando?
Se tu tiver me enganando
Arranco teu coração.

Pra contar o sofrimento
Vai faltar tempo e papel
Das mulheres de outrora
Sofreram amargura e fel
Até ir pra terra fria
Nunca tiveram alegria
Espero que cheguem ao céu

Aqui termino o recado
Mesmo sem chegar ao fim
A história foi contada
Um monte falta pro fim
Ria quem quiser sorrir
Irei pra sempre aplaudir
Pois são heroínas sim!

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