9 de out. de 2019

O BOTEQUIM DE SEU TONHO


Autor: JOSÉ AMAURI CLEMENTE


CORDEL VENCEDOR DO PREMIO LITERATURA DE CORDEL DA SECULT-AL



No Nordeste vi de tudo

De engraçado a tristonho

Já vi rico ficar pobre

Vi pobre conquistar sonho

Mas nada tão divertido

Quanto o botequim do Tonho


Ficava bem na esquina

Quase no final da rua

Pois quando alguém desejava

Matar à vontade sua

Passava a noite bebendo

Cantando ao claro da lua


E nos finais de semana

Era bem mais demorado

Se juntava velho e moço

Os casais de namorado

E dependendo das datas

Até os casais casados


Uns chamavam botequim

Boteco bar ou batuca

Espelunca e pega bebo

Tasca, bodega ou baiuca

Morada do pé inchado

Bodega ou Esfria cuca 


De seu Tonho a freguesia

De vez em quando mudava

E quem comprava fiado

As vezes nem lhe pagava

Mas só fazia uma vez

Por que seu Tonho lhe marcava


Seu Tonho anotava tudo

No caderno do fiado

E somente ele entendia

O que tinha ali notado

Quem pagava tinha crédito

Velhaco era excomungado 


Vendia quase de tudo:

Farinha, arroz e feijão

Pão francês, bolacha seca

Querosene em garrafão

Manteiga, charque e sardinha

E as vezes macarrão

Porém o que mais vendia

A noite e fim de semana

Era Conhaque e Zinebra

Cachaça feita da cana

“Vim” Jurubeba e Pitú

Nordestina e Caninana


As conversas que haviam

Vale a pena relatar

Eram fatos engraçados

O leitor vai concordar

E por isso algumas delas

Eu aqui vou recordar


Com erros no português

Cigarro preso no dedos

Cusparada e palavrões

As vezes criavam enredos

Os fregueses se sentavam

Para revelar segredos


Zequinha uma vez contou

Que foi uma pescaria

Tentou quase a noite toda

Pois já no raiar do dia

Não tinha pescado nada

E era uma noite fria


E para esquentar o quengo

Uma garrafa levou

De pinga bem temperada

Dentro da bolsa botou

E foi pescar de anzol

Por isso nada pescou


- Pescar de anzol de noite?

Foi Zequinha interrogado

Disse ele: E o que que tem?

Você tá desinformado

Vou contar aqui um caso

Que comigo foi passado


- Lá no sitio Gitirana 

Vou contar sem fazer graça

Pego peixe toda noite

Só com dose de cachaça

Já contei pra todo mundo

Quando tava aqui na praça


Quando seu Tonho lava os copo

Nessa água da bacia

Que joga a água no brejo

Peixe novo que se cria

Se vicia na cachaça

-Credo em cruz, ave Maria!


E quando eu quero pescar

Já faço isso primeiro

Encho o copo e jogo n’agua 

Quando os bichim sente o cheiro

Corre tudo pra beirada

Chega vem assim ligeiro


Eu vou derramando as dose

E eles vão se chegando

Daqui a pouco tão bebo

Um a um eu vou pegando

- Eita mentira da peste

Passou um bebo gritando


- Eu faço isso com fumo

Disse o colega sagaz

Sabendo que era mentira

Não quis ficar para trás

- Com fumo fica mais fácil

Vou dizer como é que faz


As bituca de cigarro

Quando daqui é varrida

Seu Tonho ajunta no lixo

E no rio é sacudida

Os peixe novo tudinho

Se vicia nessa lida


Vão fumando as bituquinha

Daqui a pouco os coitado

Sem querer os maiozinho

Tão tudinho aviciado

Aí quando eu boto a isca

É mais fácil ser pescado


Faço um cigarro de paia

Boto na beira do rio

Deixo lá e me afasto

E de longe eu só espio

De noite eles sai da água

Para não morrer de frio


Ficam doido pra fumar

Sente o cheiro da fumaça

Eu afirmo pra você:

É melhor do que cachaça

Até porque as bituca

Posso conseguir de graça.


Em outra situação

Ao leitor vou relatar

Juca era outro freguês

Que costumava comprar

Muitas de suas histórias

Não dava pra acreditar


Conversava com Toinho

Neto de dona Fulor

Começaram a bater papo

Cada um com mais fervor

Tudo contando vantagem

Quem suportava mais dor


Disse Juca: Sentir dor?

É besteira e eu nem ligo!

Home que é home não chora

Eu sou forte meu amigo

Vou contar um caso a tu

Que aconteceu comigo


Mês passado eu quase morro

Meu dente tava doendo

Passei a noite acordado

Parece inté que tô vendo

Era dor de matar um 

Passei a noite gemendo


Resolvi então dar fim

A dor que me perturbava

Lavei a boca com cana

Da garrafa que eu tomava

Tomei chá e comprimido

Para ver se a dor passava


De manhã pra me ver livre

Resolvi já o embate

Fui na mala de ferragem

Dei garra de um alicate

Arranquei de um por um

Com medo que a dor me mate



 - Por isso tu tá banguelo?

O bêbado tomou a frente

Tu não tem vergonha não

De contar isso pra gente

Fica inventando mentira

Só pra dizer que é valente


Com medo de uma dorzinha

Tivesse uma dor maior

Eu aguento sem chorar

O meu caso foi pior

Aconteceu mês passado

Lá no sitio do major


O major mandou levar

Sua filha na fazenda

Fica a mais de vinte légua

Vou dizer, não me ofenda

O que vou falar agora

Acredite, não é lenda


Você sabe que expedita

É bonita pra danar

Botei ela na garupa

Rapaz, quando eu fui montar

Bati meus ovos na sela

Que vi a luz se apagar


Fiquei numa posição

Sem poder me endireitar

Ela já tava montada

Eu não quis lhe incomodar

E mesmo eu não sou medroso

Não sou frouxo pra chorar


Andei mais de vinte léguas

Com os pissuído impressado

Mermo fazendo careta

Fui ali todo animado

Se fosse algum de vocês

Tava aí todo cagado.


Sempre no final da história

Tinha alguém para inventar

Cada vez uma maior

Essa que vou relatar

Aconteceu à tardinha

Ao leitor vou explicar



Foi zé Romeu que falou

Tomou a frente primeiro

Estavam contando fatos

Da briga de dois carneiro

Que eles davam cabeçada

De estremecer o terreiro


- Vocês sabem muito bem

Zé Romeu foi explicando

Acho que vocês já viram

Como é dois bicho brigando

Ficam dando cabeçada

Um no outro marretando


Foi a semana passada

Esse caso que se deu

Dois carneiros lá no sitio

Um de Tonho e outro meu

Dava tanta cabeçada

Que o pé da casa tremeu


Se afastaro um do outro

Que é para a força aumentar

Ficaram uns quarenta metros

Pra posição melhorar

Partiram com mais de cem

Pra ver quem ia ganhar


Quando um no outro bateu

Foi uma pancada triste

Pode crer não tô mentindo

Fique aí atento, assiste!

O que vi naquela tarde

Parece que não existe


Vi um bicho entrar no outro

Sem brincadeira rapaz

Ficou com duas cabeças

Uma na frente outra atrás

Acho que uma cena dessa

Eu não vejo nunca mais


O bêbado gritou de novo:

Eita mentira infeliz!

Cuidado, quem mente muito

Lhe faz crescer o nariz

Fica difícil demais

Acreditar no que diz



Tem um caso parecido

Porem mentira não é

Aconteceu mês passado

Na casa de seu Mané

Esse caso para crer

É preciso muita fé


A história é parecida

Com a que você contou

Na hora da cabeçada

Nenhum dos dois acertou

Pegaram longa distancia

Por isso um dos dois errou


Mas na carreira que vinham

Não conseguiram parar

Passaram um pelo outro

Que mal deu para enxergar

Passaram como fumaça

Só vi o vento soprar


Sumiram no fim do mundo

Que parecia rajada

Mas Jacó de seu Mané

Disse a semana passada

Que passou pelo coitado

Perto de Serra talhada


São quase quinhentas léguas

Ele sem poder parar

Tava com língua de fora

Sem o freio funcionar

Ninguém não tem nem ideia

De quando ele vai parar


- E o outro que errou?

Perguntou Toninho de Artur

Oxe! bateu a cabeça

Lá na pedra do Urubu

E entrou todinho na pedra

No to dizendo pra tu?


Falar de quem corre muito

Eu agora tô lembrado

De um caso que pai contava

Tem uns dois anos passado

Começou Toninho de Arthur

A falar desconfiado



Vovô tinha um jumentinho

Ligeiro que só o vento

Um dia ele resolveu

Experimentar o jumento

Para ver se ele corria

Vou contar nesse momento


No sitio que mãe morava

Tinha uma estrada comprida

Que dava mais de cem léguas

Toda de terra estendida

Com uma estaca bem reta

Com aquela parecida


Papai mirou na estrada

A espora foi metendo

O jumento deu um salto

E partiu doido correndo

Papai esticou os braços

Veja bem, eu tô dizendo


E com o braço estendido

Como um vento que ataca

Ele encostava a vareta 

Que batia na estaca

Fazia um taratatá

Parecendo uma catraca


Gritou o bêbado de novo:

Essa aí eu não aceito

Mentir tanto dessa forma

Isso já é desrespeito

Se é para mentir assim

Nosso encontro está desfeito


Mas antes que vá embora

Deixe eu contar primeiro

Papai tinha um jumentinho

Esse sim era ligeiro

Vou contar só esse caso

E vai ser o derradeiro


Papai montado no jegue

Resolveu fazer o teste

Partiu de caruaru

Numa carreira da peste:

-Quero ver se esse jumento

Ainda dar para o que preste



Já de Garanhuns pra lá

Ele disse que nem viu

Papai forçou mais um pouco

Porém o jegue caiu

Coitado! Já estava morto

Tentou, mas não conseguiu


Papai mediu a pressão

Viu que o jegue estava frio

Quando percebeu o caso

Deu-lhe logo um arrepio

Disse: eu não tenho certeza

Mas acho que desconfio


Desconfio mais aceito

E sei que não é besteira

Se entendo bem o caso

Depois de ver a carreira

Esse jumento morreu

Lá perto da cachoeira


Ficar a mais de dez léguas

Daqui para chegar lá

Mas na carreira que vinha

Não tinha como parar

Subiu de lá no arranque

Pra poder aqui chegar.


Entra mais um na história:

- Eita mentira do cão

Nesse dia eu tava lá

Mas eu não vi isso não

Eu vi seu pai encostado

Na grade de um caminhão


- Foi o carro que parou

Pra lhe dar uma carona

Era um caminhão de estaca

Tava coberto de lona?

Era uma trucada veia

Daquelas bem antigona


Tinha furado o peneu

E papai tava ajudando

O macaco sem ter força

E o motorista chorando

Papai teve uma ideia

De ajudar o cigano



Papai sempre foi esperto

Viu um cururu de lado

Ele empurrou pra debaixo

Do caminhão carregado

E pra confirmar o caso

Ficou assim relatado


Futocou com uma vara

O sapo chega tremeu

Inchou que só a mulesta

E o carro suspendeu

Com a ajuda do dono

Papai trocou o pneu.


Fi da peste mentiroso

Gritou seu Tonho já cansado

Botou todos pra correr

Como cachorro zangado

Apagou o candeeiro

E o botequim foi fechado


No botequim de seu Tonho

Muita coisa ainda passa

Histórias risos e fregueses

Uns sorrindo das desgraças

O que nunca falta ali

É muita mentira e cachaça.



6 de dez. de 2018

LUTAR OU MORRER


Enquanto meu irmão se contentava gastando o pouco tempo que nosso pai nos dava de folga e o dinheiro minguado que ganhava fazendo favores ao patrão, eu metia a cara nos livros que conseguia emprestado com a professora. Sonhava com uma vida diferente da que estava acostumado a ver. Embora não conhecesse quase nada sobre o sistema, tinha leve impressão que ele estaria contra mim, mas a convicção de que seria possível atingir os objetivos era maior que qualquer adversidade.
As garotas diziam que eu era “mulherzinha” por não aceitar seus convites para tomar guaravina com bolacha de dieta no barracão da usina. Meu irmão adorava essa ideia! sempre voltava contando vantagens, embora depois tivesse que lamentar por pagar a conta sozinho.
Eu só dava descanso aos meus olhos todas as noites, quando o pouco gás que minha mãe reservava no candeeiro acabava:
- Assim que acabar o querosene, vê se vai dormir, não quero você amanhã com os olhos inchados de tanto ler este negócio aí.
A noite parecia ter menos de trinta minutos, muitas vezes pensei que meu pai havia acordado o galo antes de nos recomendar as tarefas diárias. Incentivo? Só mesmo de minha mãe. Nos finais de semana eu preferia ficar isolado tentando responder aqueles problemas matemáticos que a professora passava para a lição de casa.
Como consequência das saídas de meu irmão para tudo quanto era festa e por se achar o garanhão da região, teve que se mudar para outra usina a fim de conseguir dinheiro para sustentar seus quatro filhos, sem contar com os xingamentos das mães, que todos os dias ameaçava de procurar a polícia se ele não pagasse as pensões.
Foi uma festa maravilhosa quando concluí o primeiro grau, todos estavam felizes, pensei até em usar no discurso algumas palavras novas que havia aprendido no dicionário, mas depois desisti, ninguém ia me entender mesmo.
Na manhã do dia em que completei dezoito anos de idade, o sol parecia muito mais bonito. Duas semanas depois, parti para o Sul em busca de sonhos aparentemente difíceis, mas não inalcançáveis. Não deu pra ver se meu pai estava chorando, ele inventou que ia colher espigas de milho justamente meia hora antes de minha saída. Minha mãe me abraçou com um dos braços, enquanto segurava o quinto neto de dois anos com o outro. A poeira da estrada causada pelo caminhão pau de arara foi aos poucos apagando a imagem de minha mãe acenando pra mim com um choro de despedida, fui tentado a pensar que jamais voltaria a esta terra novamente. Foram dias cansativos, mas consegui chegar ao destino. Com exceção dos sonhos, tudo era novo para mim.
 Os prédios de São Paulo me fizeram esquecer por alguns instantes as lágrimas de minha mãe, não sei quantas vezes chorei sozinho escondido no banheiro imundo da oficina em que trabalhei por quase três anos, mesmo assim, o sonho de concluir o segundo grau estava mais vivo  que nunca.  Centenas de vezes tive que sair às pressas apenas para fingir um banho, a fim de tirar a graxa das unhas e pendurar o macacão, na maioria das vezes tinha duas escolhas: Comer alguma coisa antes de sair ou perder as duas primeiras aulas. A segunda opção nunca fez parte da minha agenda, embora muitas vezes tenha chegado atrasado, devido ao tempo esperando a condução. A escola em que conclui o segundo grau ficava a duas quadras do barraco que eu havia alugado, a volta do trabalho pra casa me dava dor de cabeça e arrepios, pois nunca dava tempo passar em casa antes de ir para a aula, e quando isso era possível, o lanche rápido saía do armário improvisado direto para o estômago. Os trabalhos escolares e as pesquisas em livros doados ou emprestados continuavam tomando parte da minha noite, e estas pareciam cada vez mais curtas, o cantar do galo que me acordava todas as manhãs fora substituído por um despertador nervoso que achava sempre de me acordar na hora mais gratificante do sono.
Uma festinha de encerramento intitulada Aula da Saudade comemorou a despedida da turma do terceiro ano, tendo como atração principal os bilhetinhos e mensagens trocados entre os colegas mais próximos. As rápidas falas de alguns dos professores me incentivaram a continuar na luta, deixando-me a certeza de que meu sonho estava cada vez mais perto.
Noites cada vez mais curtas, mais livros emprestados e muita luta. Meu objetivo: Ser aprovado no vestibular de medicina em uma Universidade Pública. Desempregado e sobrevivendo fazendo “bico” recebi incentivos de uns, desânimos de outros, mas consegui ser aprovado na primeira tentativa.
O contato com meus pais era apenas através de cartas que demoravam até um mês para chegar em minha região, talvez tenham sido eles os últimos a receberem a boa notícia.
Foram anos de lutas, ajudas, choro, marmitas frias, escolhas, noites curtas, dias cansativos, mas nenhum desanimo ou reprovação.
Amigos do curso e professores notaram meu desempenho e inúmeras vezes foram solidários comigo, inclusive custeando minha visita ao Nordeste para o sepultar meu velho pai.
A colação de grau foi o acontecimento mais importante da minha vida, em meio aos trinta e cinco formandos, eu parecia mais feliz que todos. Pensando nesta data, com muito esforço consegui juntar o suficiente para pagar as despesas da formatura e ainda trazer minha mãe para conhecer São Paulo.
Mais rápido que o esperado consegui o primeiro emprego em um hospital particular, no entanto, meus sonhos não estavam totalmente realizados, eu pretendia continuar estudando, e me preparando para casar com a garota que conhecera a dois anos, tínhamos muita coisa em comum, entre elas o desejo de voltar para nossa terra de origem. Um ano depois de minha formatura estávamos diante do altar, ela recém formada em odontologia e eu iniciando meu primeiro doutorado.
Voltar para nossa terra, com condições suficiente para educar nossos filhos é um sonho hoje não tão difícil de ser realizado, no entanto pretendo concluir meu primeiro doutorado antes de pensar na primeira prole. Enquanto isso tento convencer minha mãe a ficar por mais uns dias longe do Nordeste. Vez ou outra ouço repetir a frase:
- Antes de morrer quero voltar pra minha terra, não me acostumo em cidade grande.
Anos de lutas, alegrias, sonhos alcançados, desejos realizados e muitas histórias vividas e ainda sonhadas, fazer malabarismo para conseguir dividir o tempo entre o hospital público onde trabalho, o consultório, a família e os estudos tem sido talvez a tarefa mais difícil até agora.
Olhando o passado e tudo quanto conseguimos, observando minha mãe com quase oitenta anos de idade, assistindo sua novela predileta, sem ter muito com que se preocupar, a não ser voltar para sua terra, enquanto reviso minha segunda tese de doutorado, me pergunto: Por que meu irmão se contentou apenas em administrar minha fazenda? Por que sorriu quando admiti uma de suas filhas como secretária em meu consultório?
É! Se não formos fortes, o sistema nos engole.

2 de abr. de 2018

VIDA NA ROÇA


Seu moço, eu sô um caboco
Pobre e sem instrução
Mermo passando sufoco
Muitas vezes precisão
Sem ter de ninguém ajuda
Sem parente que acuda
Quando o verão é puxado
Eu amo viver na roça
Gosto da minha paioça
E vivo aqui sossegado

As vez a chuva demora
Parece inté que num vem
Mas a vida lá de fora
Num tem o que a gente tem
Pois quem mora na cidade
Não tem seu moço, a metade
Das alegria dagente
Pois mermo sendo pouquinho
Divido com meu vizinho
E assim vivo contente

Os que moram na cidade
Por pouca coisa se zanga
Não tem a felicidade
De subir no pé de manga
Pegar a fruta madura
Isso é vida criatura!
E comer sem caburete
Jaca tirada do pé
Pra mim essa vida é
Mió que quaiquer banquete

Feijão de corda verdinho
Pra fazer feijão tropero
Leite com cuscuz cedinho
Carne de bode ou carneiro
Criado sem injeção
Desse que come ração
Prantada a beira do rio
Que tem água lamiada
Mais somente nas chuvada
Nos tempo do inverno frio
  
Seu dotô quem nunca viu
O só nascer de manhã
E também não assistiu
O cantar de uma cauã
Cantando de manhazinha
Parecendo a ladainha
Que eu via mamãe rezá
Não me diga que feliz
Quem não ouviu um concriz
E o cantar do sabiá

Quem nunca comeu do pé
A manga escorrendo o leite
Um cuscuzin com café
Não sabe o que é deleite
Quem nunca pegou a faca
Para partir uma jaca
Melando os dedo de liga
Limpar com gaz e sabão
Vida melhor num tem não
Se tiver moço me diga!

Comer fava com galinha
Criada sorta a vontade
Misturada com farinha
Isso não tem na cidade
Banana verde cozida
A melhor coisa da vida
Quem uma vez já provou
Morre e nunca mais esquece
Quem viveu isso merece
Passar o que já passou

Eu não troco o meu roçado
Pelas coisa da cidade
Prefiro ser isolado
Mais chei de felicidade
Mermo sem informação
Prefiro tirar do chão
O sustento pra comer
E mermo o maior do zome
Todo dia ele só come
Se o matuto lhe vender.

8 de jan. de 2018

MANUAL DO BOM PROFISSIONAL

Liderar é mesmo um dom,
Há os que pensam que são!
As vezes ser líder é bom
Outras vezes até que não
Vou dizer em poucos versos
O segredo dos sucessos
De quem liderou com fama
E fez tudo acontecer
É líder por merecer
Seja cavalheiro ou dama

Seja firme no que diz
Porem seja maleável
Veja se o aprendiz
É do tipo confiável
Dê-lhe oportunidade
Ensine sempre a verdade
Que é pra manter a moral
Pois mesmo o subordinado
Se ele estiver do seu lado
Você nunca se dar mal

Seja o líder ajudador
Não faça somente o seu
Trate o outros com amor
Cumprindo o que prometeu
Também não seja metido
Daquele tipo enxerido
Que em tudo quer mandar
Se você não for chamado
Fique no “cantim” calado
Que é pra não atrapalhar

Procure está informado
E antes de reclamar
Veja se o que foi falado
É preciso divulgar
Muitas vezes conversando
As coisas vão se encaixando
E o caso é resolvido
Pois as vezes camarada!
Um grito perde a boiada
E vira caso perdido
  
Em outros casos porém
Um grito salva a boiada
Quem sabedoria tem
Palavras são encaixadas
Como um quebra cabeça
Seja firme e não esqueça!
Não jogue conversa ao chão
Não precisa falar alto
Basta não descer do salto
E acaba a confusão

Planeje sempre que for
Botar um plano em ação
Procure um ajudador
Não faça sozinho não!
Aceite novas ideias
Porém não ouças as plateias
Pois nem sempre o grupo acerta
E cuidado em quem confia
Por que quem serpente cria
Precisa estar sempre alerta

Respeite a hierarquia!
Tem sempre um superior!
Não viva de anarquia
Isso é chato e causa dor
Mas as vezes uma risada
Por uma boa piada
Que a ocasião surgir
Por que ninguém é de aço
Também não palhaço
Pra fazer o povo rir

Jogue no time do bem
Ouça quem for seu amigo
Seja amigo, e não refém
Escute quem está contigo
Agora vá com cuidado
Mesmo estando do seu lado
As vezes até pode errar
Um erro ou outro se acerta
Ria, cante, fique alerta
Importante é liderar.


16 de out. de 2017

A COR


A cor que difere
Quando à pele fere
E quando prefere
A desigualdade,
Se torna maldade
E traz dissenções
Sem intervenções
A quem se refere

Se é vista de forma
Que nada transforma
E que pouco informa
Sobre a igualdade
Se torna maldade
E muda as ações
E as reações
A vida deforma

A cor não importa
Se bem se comporta
Se ao outro suporta
Sendo diferente
Se faz coerente
Pois ver tudo igual,
Pois ver desigual
O bem não aporta

A cor que difere
Se a pele não fere
Se a todos prefere
Ver com igualdade
Não vendo maldade
Sendo desiguais
Pois somos iguais,
Isso prolifere!


31 de jul. de 2017

SER NEGRO

O passo à frente sob a ordem do policial fez-me entender que a igualdade apregoada pelos conformados com o sistema, está longe do que deveria ser. Tivesse o policial abordado o negro da mesma forma que abordou o motorista branco a poucos minutos, teria deixado uma impressão diferente para os espectadores.
A sabatina feita ao desconhecido “negro” não teve o mesmo tom de voz nem a mesma quantidade de perguntas feitas ao motorista anterior. Não tem o negro direito a comprar um carro do ano? Não pode o negro levar seus amigos à praia sem drogas no porta malas e sem cigarros no porta luvas? O simples baixar do vidro não teria respondido aos questionamentos sobre o negro assim como respondeu as dúvidas sobre o branco?

Um país mestiço que tenta esconder sua origem, tona-se inferior apenas por não aceitar sua diversidade.

28 de jul. de 2017

O SEGREDO DE JUDITE

PUBLICADO EM 2010, REPUBLICADO EM 2017.


Não era a primeira vez que eu ouvia passos estranhos no alpendre toda vez que chegava ao portão de casa, isso me deixava, quando não irritado, curioso. Na maioria das vezes fingia não ouvir, ou tentava encobri-los com assovios enquanto caminhava em direção à porta de entrada. Sempre nervosa, Judite, a quem havia prometido perante o sacerdote e uma gama de testemunhas composta por compadres, primos e comilões, amá-la eternamente em quase todas as adversidades, vinha me receber com um caloroso cumprimento de boas-vindas. Impossível não perceber o olhar desconfiado, cabelos despenteados, lábios trêmulos, rosto pouco suado, Olhar de quem me escondia algo. Embora preferisse ser recepcionado ouvindo o nome que minha madrinha escolheu e concretizou na pia batismal, Judite sempre repetia a mesma frase: -Tão cedo Chico? Achei que iria fazer hora extra.
Embora lesse em meus olhos a pergunta, nunca me respondeu por que demorava tanto abrir a porta quando em assovios e passos barulhentos eu caminhava pelo corredor e chamava  na porta principal. Daria tudo para entender por que a chave sempre estava por dentro, a porta sempre fechada e o lenço que costumava usar na cabeça quando estava na cozinha servia de
toalha para enxugar as mãos e o rosto.
Não gostava nenhum pouco quando me tornava o principal alvo dos olhos das mulheres nas janelas ao passar pela rua, me irritava tanto quanto a dúvida o torcer dos pescoços dos moradores em pé nas calçadas ao me virem passar, parecia sentir o peso dos olhos dos espectadores em minhas costas até dobrar a esquina da padaria. Não entendi por que o padeiro não me olhava nos olhos há três semanas, nem bom dia eu ouvia de sua boca desde os primeiros passos estranhos no meu alpendre.
Terrível era pensar que depois de quarenta e nove verões, faltando sete dias para completar mais um, a mulher que há trinta primaveras me prometeu honrar enquanto vivesse, estivesse de caso com o padeiro. Embora a saída do meu quintal desse acesso à rua da padaria, o portão de traz nunca havia sido aberto com tanta frequência como nesta última semana, a chave da dispensa que nunca saiu do chaveiro preso à parede era tão visível quanto a verdade a respeito dos passos estranhos no alpendre. As noites que se seguiram pareciam ter quarenta e oito horas, os olhares flechados em mim durante o dia pareciam estar presos ao teto, enquanto os sussurros ampliados pela criatividade do ferido pareciam gritos que acordavam a vizinhança.
Porque será que a toalha que cobria a mesa no café desta manhã não era a usada costumeiramente? Esta era a pergunta que não me saia da mente enquanto caminhava pela rua
sob o olhar dos curiosos em direção ao trabalho. Tão agradável quanto a dúvida era o ecoar da
Indagação feita ao sair de casa: Vai fazer hora extra hoje? Não me lembro de ter ouvido esta pergunta durante os trinta anos de convivência, mas esta semana já era a quarta vez.
Poderia ter voltado para casa como de costume, mas nesse dia resolvi almoçar ou pelo
menos fingir em um barzinho próximo ao local de trabalho.
Poderia chegar em casa naquele dia meia hora antes do combinado e deixar que os
herdeiros da padaria dividissem a herança mais cedo. Não hoje! pensei, não vou comemorar
cinquenta anos fugindo da polícia por cometer duplo assassinato. Quem sabe depois de amanhã? No horário costumeiro resolvi voltar para casa, ao chegar ao portão, o barulho dos passos parecia mais alto, embora emudecessem ao tilintar da chave fazendo coro com meus
assovios. Parecia até ouvir respirações ofegantes, meus sentidos diziam que alguém além de
Jú estava na cozinha. O cenário era perfeito para uma noite de amor: A casa estava arrumada, embora o sofá nem tanto, parecia que crianças haviam corrido sobre ele, a sala estava tão iluminada quanto a verdade em minha mente. Parecia não haver ninguém ali, apenas parecia, pois eu podia jurar que estava ouvindo sussurros.
Com passos trêmulos fui até a cozinha, já estava próximo à despensa, para descobrir toda a verdade, precisava apenas acender a luz... O “tic” do interruptor foi abafado pelas palmas e a voz desafinada do coro: Parabéns pra você, nessa data querida, muitas felicidades, muitos anos de vida. Pasmei!

Até hoje não entendi três coisas: Como pude desconfiar de Jú; como coube tanta gente naquela despensa e como conseguiram pagar um bolo tão grande. Sei apenas quem pagou o mico em sua primeira festa de aniversário.