19 de out. de 2010

CRUZES DOLOROSAS

AUTOR: JOSÉ AMAURI CLEMENTE

Ontem acordei stressado, nem me lembrei de agradecer a Deus pela noite, nem mesmo achei que tinha motivos pra isso. Passamos quase toda noite em claro sendo obrigados a ouvir barulhos de freqüentadores de um baile de rua próximo a minha casa. As seis da manhã, meu filho de cinco anos já rolava sobre nós a mais de uma hora, as perguntas que conseguíamos responder gerava novas dúvidas em sua fértil mente de criança. Vencida pelas interrogações e o compromisso de está no trabalho as sete, minha esposa levantou-se sem nem mesmo lembrar de agradecer a Deus por mais uma noite. Acho que ela tinha razão, afinal de contas, não tínhamos muito que agradecer, a menos que tivéssemos de usar de hipocrisia.

O relógio não nos permitiu fazer um desjejum digno de um assalariado, tínhamos que levar o garoto na creche e chegar ao trabalho antes das oito.

O olhar triste de minha esposa não permitia que sorríssemos um para o outro, e mesmo, não havia motivos pra isso. Afinal de contas nas ultimas semanas tudo estava dando errado:

A empregada pediu demissão, as faturas dos cartões chegaram quase no dia do vencimento, a mensalidade da creche estava atrasada, tudo isso adiava o plano de comprar o carro para quatro ou cinco anos no futuro.

No caminho em direção a creche, nos deparamos com algumas cenas que nos fizeram refletir:

. Não precisou caminhar muito pra encontrar um garoto de aproximadamente sete anos com o nariz enfiado numa garrafa de refrigerante cheia de cola, outro dormia sobre papelão dominado pela droga que havia usado na noite anterior, enquanto seus “amigos” procuravam no bolso de sua bermuda restos de cigarro que talvez houvesse sido esquecido;

. Uma senhora passou por nós empurrando um carrinho com um adolescente paraplégico que sem noção alguma de existência parecia sorrir para quem o olhava;

. Outra criança estendeu a mão em nossa direção, solicitando um pedaço de pão;

. Um barraco de papelão improvisado era o único abrigo do pai de família que talvez como propaganda para amolecer o coração dos pedestres usava o filho menor para ganhar um pedaço de pão.

. Um senhor de aproximadamente quarenta e cinco anos segurava amarrado ao pescoço uma placa com a desesperada frase: “Preciso de emprego para sustentar meus filhos”

A cada nova cena apresentada, eu e minha esposa nos olhávamos e nos sentíamos envergonhados:

Enquanto lamentávamos por nosso filho nos acordar às cinco da manhã saltando sobre nós, aquela senhora daria tudo para ter seu filho com esta disposição;

Enquanto ficávamos chateados com Deus pela noite mal dormida em nosso agasalho, aquele pai de família não tinha nenhum lugar onde repousar a cabeça;

Enquanto lamentávamos por ter que levar nosso filho à creche, aquela criança nunca teve oportunidade de ir à escola;

Enquanto criticávamos Deus por ter que acordar cedo para ir ao trabalho, aquele senhor sonhava com esta oportunidade.

Nunca havíamos reparado às cenas por onde passávamos diariamente. Como em um passe de mágica nosso lamento cessou. Até parece que o dia passou mais rápido. A noite antes de dormir, agradecemos a Deus por tudo, Inclusive pela criança que nos acorda todos os dias com perguntas praticamente sem respostas.

Que tal transformar as palavras de lamentações em frases de conforto ao necessitado? Lembre-se por mais pesada que sua cruz pareça, existem outras mais dolorosas.

18 de out. de 2010

O POBRE É QUEM PAGA A CONTA


Autor José Amauri









Falam que pra melhorar

Para o meu país crescer

Preciso economizar

Racionar pra valer

E de tanto ouvir dizer

Já to de cabeça tonta

Daqui a pouco desmonta

Essa conversa não presta!

Os grandões fazendo festa

E o pobre pagando a conta.


Para economizar

Veio horário diferente

Não posso nem me lavar

Usando o chuveiro quente

Mesmo que esteja doente

Não posso usar o que meu

Ao ouvir isso, doeu!

Tomei isso como afronta

Os grandões fazendo festa

E o pobre pagando a conta


Tem deputado roubando

Senador fraudando tudo

Ministro nos enrolando

Quem ver isso fica mudo

Usam isso como escudo

Sem coragem de falar

Até quem deve julgar

Ver tudo e ainda atesta

Os grandões fazendo festa

E o pobre pagando a conta.


Juízes mentindo tanto

Que dar até medo ouvir

Partido metido a santo

Mas ninguém ver ele agir

Enquanto morro de fome

Eles vêem que a hora é esta

Comem que só a “mulesta”

Faz bagunça e ainda apronta

Os grandões fazendo festa

E o pobre pagando a conta.

22 de set. de 2010

BEM VINDOS A PRIMAVERA.

Autor: José Amauri Clemente
Direitos reservados


Em meio a tanta correria somos tentados a passar despercebidos às maravilhas que Deus nos oferece. A pressa nos impede de observamos o reflexo do sol em uma gota de orvalho derramada sobre a grama. São bênçãos dadas por Deus. Em vez de lamentar pela correria, louve a Deus por poder ver, sorrir, cantar, trabalhar, alegrar-se ou até mesmo ter alguém por quem chorar ,isso mostra que você tem sentimentos. Em vez de ralhar com os filhos por tanto barulho dentro de casa, agradeça a Deus por eles poderem correr. Em vez de lamentar pela quantidade de pratos pra lavar, louve a Deus pelo alimento de ontem. Que tal agradecer a Deus pelas roupas que usou em vez de lamentar pelo tempo gasto para lavar? Tente observar os pontos positivos do seu dia a dia em vez de ampliar os pontos negativos. Cante uma canção, escreva um poema, faça um favor a alguém, entregue um folheto, der um telefonema para alguém que você não ver ha dias. Faça algo diferente, algo bom.
Observe a natureza. A música mais tranqüila, mais suave que venha ser cantada não poderá substituir o cantar de um pássaro, que mesmo sem letra alguma encanta gerações.
Hoje é 22 de setembro. Sorria você acaba de entrar na primavera.

A RESPOSTA DE DEUS


Autor: Jose Amauri Clemente

Todos os direitos reservados


- Deus, hoje acordei atrasado para o serviço.

- Isso prova que sua cama estava confortável.

- Fui dormir ontem muito cansado.

- Isso mostra que você trabalhou.

- Tive que tomar banho às pressas para não chegar atrasado ao serviço.

- Isso mostra que você é responsável.

- Tive que comprar um sanduíche na lanchonete do prédio.

- Isso mostra que você tem crédito ou dinheiro.

- Passei quase duas horas preso na fila do transito.

- Isso prova que você não está indo trabalhar a pé.

- Cheguei meia hora atrasado.

- Isso mostra que você não perdeu a noção do tempo.

- Meu chefe ralhou comigo.

- Isso mostra que você é notado.

- Tive que sair as 11 pra pegar as crianças na escola.

- Muitos não têm filhos nem escola.

- Almocei em restaurante.

- Muitos apenas viram você almoçar.

- No intervalo fui ao banco pagar a fatura do cartão.

- Muitos receberam cobrança.

- Tive que voltar antes das duas.

- Outros não puderam voltar.

- Ficaram trabalhos pra terminar amanhã.

- Por isso você não foi demitido.

- Cheguei em casa mais de 8 da noite.

- Outros não chegaram.

- Estava super cansado.

- Tens onde descansar.

- E se acordar atrasado mais uma vez?

- Será por que a cama estará confortável.

- Tens razão.

20 de ago. de 2010

POLÍTICOS NO PAIS DAS MARAVILHAS

Autor: José Amauri Clemente

Todos os direitos reservados

Quem já não ouviu falar do conto infantil Alice no país das maravilhas? Pois é, a fábula que há anos encanta crianças e adultos tornar-se realidade aqui no Brasil.

Estamos em ano eleitoral, e como sabemos, todos os candidatos são “bons”, “trabalhadores”, “honestos”, “hospitaleiros” e etc...etc... etc... Claro! Afinal de contas eles precisam de votos, muitos votos.

Como consegui-los? Promessas é uma fábrica de fazer votos, mas prometer o que? Afinal de contas o governo atual diz que no Brasil não falta trabalho. Esquece que o povo brasileiro não quer trabalho, quer emprego. E como dar trabalho conseguir emprego! Sabe-se que o verdadeiro político procura a necessidade do eleitor para assim poder ajudá-lo.

A natureza resolveu dar uma mãozinha e enviou para alguns estados do Nordeste uma chuva descomunal que acabou arrastando casas, terrenos, pontos comerciais e sonhos de muitos nordestinos. Se for verdade que São Pedro é o responsável pela chuva, acho que ele tornou-se cabo eleitoral de algum candidato, afinal de contas se os eleitores perderam tudo (embora nada tivessem a não ser a dignidade) esta é a oportunidade que os “lobos” esperavam para prometer casas, terrenos, empréstimos, sonhos e dignidade.

A catástrofe ocorrida no Nordeste tornou-se um prato cheio para os mal intencionados. Uma coisa é certa: Eles não vão mais oferecer trabalho, pois isso o nordestino já tem de sobra. Trabalho para arrastar a lama, trabalho para juntar os moveis, trabalho para enterrar as vitimas, trabalho para fazer Boletins de Ocorrência, trabalho para conseguir empréstimos em bancos, trabalho para receber cestas básicas e etc... etc... etc....

Como diz o titulo, o Brasil tornou-se mesmo o país das maravilhas, agora eles podem trabalhar toda campanha fazendo promessas.

Uma coisa eles precisam lembrar: O povo brasileiro não está mais vivendo de promessas. Aliás, nem São Pedro está acreditando em promessas de políticos, tanto é que há alguns anos trabalhava para os candidatos de Santa Catarina, depois de passar pelo Nordeste está fechando contrato com os políticos da China. O problema é que lá o sistema é diferente. Será que vai dar certo?

17 de ago. de 2010

DIÁRIO DO RIO MUNDAÚ


AUTOR: JOSE AMAURI CLEMENTE
TODOS OS DIREITOS RESERVADOS

PÁGINA 01
- Querido diário. Hoje é o dia 14 de julho de 1960, como já te falei, não estou bem. Aquele grupo de seres humanos que há alguns anos resolveu construir suas moradas em minhas margens, decidiu oficializar para sempre sua estadia em um lugar que a natureza prometeu ser somente meu. Não quero que você pense que não quero doar minhas águas pra eles, é que estou preocupado, eles não estão levando em conta que estão me ofendendo com os esgotos que deixam cair sobre mim. Sabe? Eu já ouvi falar de outros rios que foram completamente destruídos, Tenho medo que no futuro, em um momento de fúria perca o controle e destrua o que eles levaram tantos anos para construir. Eles chamam esse dia de Emancipação Política do Município. Tem muitas autoridades presentes, ouvi até alguns dizerem que daqui pra frente o lugar vai se tornar um paraíso. Espero que eles estejam certos.
PÁGINA 02
-Hoje é o dia 02 de maio de 1962. Ontem eu fiquei irado, tive que suportar água de mais de 10 dias de chuva. Todos os rios despejaram dentro de mim, fui obrigado a represar as águas do rio Mirim e derrubei algumas poucas casas que tinham às minhas margens. Ainda bem que a fúria foi passageira. Estou triste com tudo isso, mas não consigo me controlar. É algo inexplicável.
PÁGINA 03
Hoje é 15 de maio de 1977, mas uma vez devido às fortes chuvas fui obrigado a transbordar minhas águas. Não foi minha intensão, mas acontece que os humanos estenderam suas casas e propriedades às minhas margens! Muito próximo! Eu até  tentei avisar, dando sinais com troncos e folhas arrastadas, mas ninguém levou a serio. Fiz uma barulheira danada pra ver se o pessoal se conscientizava e saia das margens do rio, mas não adiantou. Tinha até meninos pulando da ponte me desafiando. Eu fiquei tão irritado com isso que acabei arrastando algumas casas e deixando muita gente desabrigado. Ninguém é de ferro né?! O pior de tudo é que quando as águas passam eu fico tranquilo. Não entendo esse meu jeito de ser.
PÁGINA 04
-Hoje é o dia 03 de abril de 1992, estou doente, muito doente. Às minhas margens estão criadouros de porcos, esgoto de matadouro, lixo em abundância e muitas casas. Estou dando sinal de transbordamento há dois dias, mas parece que ninguém se dar conta. O comercio da cidade invadiu meu lugar. Se novamente eu precisar represar as águas, não terei por onde passar.....Hoje é o dia 02 de junho de 1992, quinta feira são 7 horas da noite, acabei ter uma crise horrível, Não consegui me controlar e arrastei muitas casas. O comercio está completamente destruído, Matei duas pessoas, dizem que uma estava grávida. Invadi o mercado público e derrubei várias lojas. Foi horrível. Sinto-me culpado.
PÁGINA 05
- 18 de julho de 2010 foi o dia mais triste de minha vida. O dia em que perdi totalmente o controle e com muita fúria arrastei casas de velhos e novos amigos. Eu sei que todos me culpam pelo acontecido. Poucos, porém param para entender que não tenho culpa se seres humanos construíram suas moradas no caminho por onde eu sempre passei. As águas jogadas sobre mim foram muitas, até meu amigo Mirim que sempre foi tranqüilo se enfureceu quando represei suas águas. Foi horrível! Nunca fiquei tão agitado assim. Não lembro muita coisa, mas dizem que derrubei várias casas e prédios no comercio, inclusive um jovem foi soterrado, ou arrastado, sei lá... Sei apenas que a tragédia foi a maior que já causei. Eu sabia que não iria suportar muito. Há três dias os humanos estavam tão contentes, Fizeram uma grande festa para comemorar 50 anos de emancipação política. Eu fiz de tudo para não causar danos a eles. Não pude me controlar.
Não tenho coragem de pedir desculpas aos moradores. E o pior de tudo é que não vou poder devolver o que levei deles. Ouvi boatos de que a cidade vai se mudar para outro lugar. Dizem que vão armar umas barracas, mas estão todos com medo da minha fúria.
Espero que o lugar que eles venham escolher para fazer a nova cidade seja bem longe de qualquer perigo. Talvez um dia algum humano leia estas páginas e entenda minha situação. Eu quero ser amigo dos humanos, mas eles precisam colaborar comigo.

Relatado pelo Rio no perímetro do Município de Santana do Mundaú - Al, uma das cidades mais atingidas pelas enchentes do Rio Mundaú. Todos os direitos reservados.

15 de jun. de 2010

UM CONTO TROCANDO OS PONTOS


ASSIM CAMINHA A HUMANIDADE

Todos os direitos reservados:

José Amauri Clemente





Filomena arregala os olhos ao ver Frederico vindo em sua direção:

- Menino o que aconteceu? Que sangue é esse em tuas mãos homem?!

- Nada! Coisa boba. Fui descascar um coco e me cortei com a faca.

- Foi fundo o corte?

- Não, feriu pouco, vou até a farmácia pedir pra fazerem um curativo.

- Vai cuidar disso logo, pode infeccionar.

- Não, vou cuidar imediatamente.

Mal Frederico dobra a esquina, filó corre para a casa da vizinha.

- Bel, você viu o corte horrível nos dedos do Frederico?!

- Não, o que foi?

- Ele disse que não feriu pouco. Pelo jeito deve ter atingido todos os dedos.

- Ta muito infeccionado?

- A estas alturas acho que sim, e ele disse que não ia cuidar imediatamente.

- Do jeito que ele é despreocupado vai terminar infeccionar o braço todo.

- Vira essa boca pra lá. Ele tem mesmo é que se cuidar. Preciso ir, fica ai torcendo por ele.

Logo que Bel fica sozinha vai ao telefone e liga para Nicolau:

- Cunhado, você não sabe o que aconteceu com o Frederico.

- Que foi que houve?

- Sofreu um acidente, está com o braço todo infeccionado, a boca dele está virada pra lá e é preciso cuidar.

- Não me diga que ele vai morrer?

- Não! Acho que ele está no hospital, espero que o caixão não o leve.

- Você acha que ele vai morrer?!

- Não! Vamos rezar por ele

- Liguei só pra te dar a noticia, tô indo pra missa.

Nicolau aproveita o msn e passa as informações para a namorada:

- Mozinho você não vai acreditar..

- Em que?

- O Frederico ficou com um lado paralisado e não foi ao hospital, acho que morreu. Já estão esperando que levem o caixão.

- Onde será que ele está agora?

- O corpo vai ser velado na igreja, a Bel já está indo pra lá, e disse que não vão rezar por ele.

- Que covardia! Vão enterrar o coitado sem nem se quer rezar?

- Não! Chama o padre, por favor! Te espero lá na igreja. Thal!


- Que absurdo! A que mundo nós chegamos!

- O que foi filha?

- O Frederico morreu e a família não quer que chame nem o padre pra rezar a missa.

- É por causa dessas coisas que o mundo ta de cabeça pra baixo. Misericórdia! Velório sem reza só dá falatório.