20 de abr de 2010

LAMENTAÇÕES DE UM SOBREVIVENTE


Autor: José Amauri Clemente
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Por que fomos dar atenção àqueles homens de roupas diferentes que chegaram a nossa ilha com largo sorriso e fala estranha? Não entendíamos o que eles queriam quando estenderam a mão para o chefe da tribo. Nossas crianças correram para se esconder nas ocas e sobre as árvores, mas logo foram se aproximando ao verem os objetos sendo desencaixados e entregues às mulheres da aldeia.
Nunca tinham visto seus rostos a não ser no reflexo da água, aquele objeto que eles chamavam de espelho era a coisa mais surpreendente que já havíamos visto.
O passar do pente no cabelo das índias adolescentes as tornavam mais bonitas e atraentes, os brincos de metal postos em suas orelhas refletiam a luz do sol nos olhos dos índios que as olhavam. Que roupas bonitas! Os tecidos coloridos pareciam ter sido mandados pelos deuses para aliviar o frio do inverno causticante.
Nas aldeias vizinhas não se falava em outra coisa a não ser os presentes doados pelos homens de caras brancas e roupas estranhas. Como nossos indiozinhos ficavam felizes quando os brancos os deixavam subir nas caravelas para tomar banho saltando dentro d'agua.
Mesmo com receio, nosso cacique ficou encantado com a novidade trazida pelos novos “amigos”.
Há! Se os deuses tivessem nos falado aos ouvidos que aquelas pedras que enfeitavam os pescoços de nossas índias eram tão valiosas e no futuro iriam nos causar tantos problemas, se soubéssemos, não teríamos negociado nossos frutos, nossas sementes, nossas madeiras em troca de bugigangas que alegrou-nos apenas por alguns dias.
Maldita invenção da caravela, maldita invenção dos mapas, malditas promessas, malditas indústrias que invadiram nossas terras, malditas demarcações que hoje nos atormentam, Maldito capitalismo que nos escraviza. Maldito 22 de abril de 1500! Se tu não tivesses existido minha tribo não estaria extinta.


20 de abril de 2010

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