18 de abr de 2010

COLHEMOS O QUE PLANTAMOS



Enquanto meu irmão se contentava em gastar o pouco tempo que nosso pai nos dava de folga e o dinheiro minguado que ganhava fazendo favores ao patrão, eu metia a cara nos livros que conseguia emprestado com a professora. Sonhava com uma vida diferente da que estava acostumado a ver.
As garotas diziam que eu era “mulherzinha” por não aceitar seus convites para tomar *guaravina com **bolacha de dieta no barracão da usina. Meu irmão adorava essa idéia, sempre voltava contando vantagens, embora depois tivesse que lamentar por pagar a conta sozinho.
Eu só dava descanso aos meus olhos todas as noites, quando o pouco gás que minha mãe reservava no candeeiro acabava.
- Assim que acabar o querosene, vê se vai dormir, não quero você amanhã com os olhos inchados de tanto ler este negocio ai.
A noite parecia ter menos de trinta minutos, muitas vezes pensei que meu pai havia acordado o galo antes de nos recomendar as tarefas diárias.
Incentivo? Só mesmo de minha mãe. Nos finais de semana eu preferia ficar em casa tentando responder aqueles problemas matemáticos que a professora passava para a lição de casa.
Como conseqüência das saídas de meu irmão para tudo quanto era festa e por se achar o garanhão da região, teve que se mudar para outra usina a fim de conseguir dinheiro para sustentar seus quatro filhos, sem contar com os xingamentos das mães que todos os dias o ameaçavam de procurar a policia se ele não lhe pagasse as pensões.
Foi uma festa maravilhosa quando concluí o primeiro grau, todos estavam felizes, pensei até em usar no discurso algumas palavras novas que havia aprendido no dicionário, mas depois desisti, ninguém ia me entender mesmo.
Na manhã do dia em que completei 18 anos de idade, o sol parecia muito mais bonito, duas semanas depois parti para São Paulo. Não deu pra ver se meu pai estava chorando, ele inventou que ia colher espigas de milho justamente meia hora antes de minha saída. Minha mãe me abraçou com um dos braços, enquanto segurava o quinto neto de dois anos com o outro.
Os prédios de São Paulo me fizeram esquecer por alguns instantes as lágrimas de minha mãe, não sei quantas vezes chorei sozinho escondido no banheiro imundo da oficina em que trabalhei por sete anos. Centenas de vezes tive que sair as pressas apenas para fingir um banho, afim de tirar a graxa das unhas e pendurar o macacão. Na maioria das vezes tinha duas escolhas: Comer ou perder as duas primeiras aulas.
Hoje, olhando o passado, deitado em minha varanda, observando minha mãe com quase noventa anos de idade, assistindo sua novela predileta, sem ter mais com que se preocupar, me pergunto: Porque meu irmão se contentou apenas em administrar a fazenda? Por que sorriu quando admiti uma de suas filhas como secretária em meu consultório? Não seria melhor se o sorriso fosse acompanhado dos aplausos dos convidados para a festa de formatura de mestrado?
É... Cada um colhe o que planta.

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